Os agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes no Rio de Janeiro entraram em uma mansão com vista para o mar no bairro de Joá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, para cumprir dois mandados de busca e apreensão.
A mansão foi alugada por um dos principais trappers do Brasil, Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, mais conhecido como Oruam.
A polícia estava buscando uma arma que o músico teria disparado dentro de um condomínio residencial em Igaratá (SP) em dezembro do ano passado.
Dentro da casa estava o traficante Yuri Pereira Gonçalves, foragido desde de 2020 por supostas ligações com o crime organizado.
Yuri já havia sido condenado anteriormente por tráfico de drogas na região do Complexo da Penha, região dominada pelo Comando Vermelho (CV).
O pai de Oruam é um dos principais nomes da facção criminosa, conhecido pelo apelido Marcinho VP.
Em uma participação para o canal de podcasts Pod Pah, Oruam nega envolvimento com os negócios do pai e diz conseguir seu dinheiro através da música:
“Ele sofreu pra c******, tá lá, pagando por tudo o que ele fez. Ninguém pode falar nada. É meu pai. Vagabundo fala vários bagulhos, querendo 'denegrir' minha imagem por causa dele. O bagulho que ele fez, foi ele que fez, não tenho nada a ver com isso, eu bombei não falando nada com meu pai, bombei com a minha música, sozinho”.
O vídeo foi gravado na casa onde o artista mora.
Marcio dos Santos Napomuceno, o Marcinho VP foi condenado a 36 anos de prisão em 2007 por ajudar a matar e esquartejar dois traficantes rivais.
O criminoso tem 54 anos de idade e passou 26 deles atrás das grades. Sua trajetória no crime começou ainda cedo.
Márcio dos Santos Nepomuceno nasceu em 1970 na favela do Vigário Geral, zona Norte do Rio, mas logo se mudou para São João de Meriti.
Seu pai foi assassinado quando ele ainda era apenas um bebê e sua mãe foi presa em quatro ocasiões diferentes. O traficante e seus três irmãos foram criados por uma tia.
Em sua autobiografia chamada Marcinho Verdades e Posições: O Direito Penal do Inimigo, o criminoso conta que começou a roubar aos 13 anos para comprar roupas de marca.
Marcinho teria começado a traficar drogas no início na década de 1980 e ascendeu dentro da hierarquia do CV.
O apelido “VP” pode ter surgido no início da carreira no tráfico, já que costuma ser usado como sigla para a expressão “vapor”, um pequeno vendedor de drogas.
Na época em que ele entrou para a facção, o Complexo do Alemão era controlado pelo traficante Orlando Jogador.
O chefão do crime organizado foi assassinado em 1994 por Ernaldo Pinto de Medeiros, vulgo Uê, que queria assumir o controle da região.
A morte fez com que a favela passasse por uma série de sucessões na liderança do tráfico até a ascensão de Marcinho VP no comando.
Como um dos principais líderes no Complexo do Alemão, Marcinho VP assumiu uma posição de destaque dentro das estruturas do Comando Vermelho.
Apesar das investigações destacarem a posição do criminoso no tráfico de drogas, ele afirma que nunca se envolveu com essa atividade.
Em uma entrevista para a Record TV, Marcinho alega ter atuado apenas como assaltante de bancos e carros-fortes.
“Eu sou acusado de ser chefe do tráfico desde quando estava na rua, desde meus 17 anos de idade. Eu sou acusado, mas nunca fui traficante na vida, vivia de assalto”.
Marcinho VP alega ter ajudado o ex-governador do Rio a se eleger como prefeito da capital carioca em 1996.
O criminoso contou que conheceu Cabral em 1996, durante um show de um grupo de pagode no Complexo do Alemão:
“Foi em um domingo, ele subiu no meu camarote, lá comeu e bebeu, me abraçou, me elogiou pra caramba… Ele viu que eu estava armado, me abraçou, me elogiou e agradeceu por tudo que eu estava fazendo por ele.” Disse o traficante durante a entrevista para a Record.
Segundo conta, Sérgio Cabral teria recebido ajuda do Comando Vermelho para ganhar nas eleições municipais do Rio de Janeiro em 1996.
“Ajudei na campanha dele de 1996, com centenas de cabos eleitorais. Tudo 0800, ele não gastou um real. A pedido nosso, centenas de pessoas apoiaram ele, ele foi no meu palanque para fazer discurso, contou as histórias dele e me enganou direitinho.”
O ex-governador teria virado as costas para o traficante e seus aliados, sendo considerado por Marcinho VP como um traidor:
“Maior Judas que eu conheci na minha vida, daqueles que cospem no prato que comeu e vira as costas para que o ajudou algum dia.”
O criminoso diz que se sente revoltado com a trajetória do político pela forma como ele agiu à frente do governo:
“Para mim não faz diferença ele ter me transferido para o presídio federal, é o trabalho dele, ele era governador. Minha maior indignação é que ele cuspiu no prato que comeu, fez muito mal para a população carioca, Sérgio Cabral Filho foi o maior charlatão, o maior facínora que já conheci.”
O político chegou a ser preso durante investigações da Lava Jato, mas está em prisão domiciliar. Os advogados de Sérgio Cabral negam que esses eventos tenham acontecido.
Procurado pela polícia carioca por pelo assassinato e esquartejamento dos traficantes André Luis dos Santos Jorge e Rubem Ferreira de Andrade, Marcinho fugiu para o Rio Grande do Sul.
Na época, o detetive José Carlos Guimarães ficou encarregado de liderar as investigações sobre o caso. O policial passou quatro meses tentando descobrir o paradeiro do traficante.
A operação que levou Marcinho VP à prisão foi feita pela polícia do Rio de Janeiro sem conversas com as autoridades gaúchas.
Na época, a mídia informou que o governador carioca Marcello Alencar pediu desculpas ao gaúcho Antônio Britto por causa da ação.
Segundo a polícia, mesmo atrás das grades, Marcinho VP seguiu com um papel importante para a liderança do Comando Vermelho.
Ele é acusado de ter envolvimento no assassinato de Márcio Amaro de Oliveira, conhecido como Marcinho VP de Dona Marta, no ano de 2003.
Amaro era um traficante do Comando Vermelho que liderava a facção na favela de Dona Marta.
Ele teria despertado a ira de outros membros da organização por contar detalhes sobre o crime durante entrevistas para jornalistas.
O traficante chegou a aparecer no documentário Notícias de uma Guerra Particular e deu depoimentos para o livro Abusados, de Caco Barcellos.
O corpo de Amaro foi encontrado em uma lata de lixo com sinais de asfixia dentro do presídio de Bangu III.
Os guardas do presídio só deram falta do criminoso quando o advogado Ezequiel Ferreira da Costa procurou falar com seu cliente.
As acusações de que Marcinho VP continuava envolvido com o crime organizado mesmo preso motivaram sua transferência do presídio conhecido como Bangu I.
O criminoso foi levado em 2007 para o presídio federal de Catanduva, no estado do Paraná.
Ele foi posteriormente transferido para o de Mossoró, no Rio Grande do Norte e atualmente cumpre pena no de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
As instituições federais são destinadas para detentos especiais, como:
No sistema federal, os detentos ficam em celas individuais e contam com menos tempo para tomarem banho de sol.
Além disso, as visitas de familiares só podem acontecer sem contato físico, separados por um vidro por meio de interfones.
Marcinho VP alega que esse tipo de presídio dificulta o contato com a família, e seria importante para a ressocialização:
“A penitenciária federal tira do preso o maior estímulo para a reintegração social que é a sua família, em presídio federal o preso não tem direito nenhum”.
Nos presos se encontram com as famílias uma vez por semana, mas no caso de Marcinho VP, o encontro costuma acontecer a cada 15 dias:
“Todas as vezes que eles tem que se deslocar milhares de quilômetros para poderem me visitar eles perdem dois dias de suas atividades laborativas e educacionais. Chega a ser uma covardia com a família do preso.”
Durante um show do Lollapalooza, Oruam chegou a vestir uma camiseta com o rosto do pai com a palavra “liberdade” escrita embaixo.
O especialista em segurança pública, João Henrique Martins, afirmou no programa Contraponto que a tese de que o sistema carcerário deveria ser baseado na ressocialização está errada:
“Em nenhum lugar do mundo você controlou crime produzindo ressocialização ela foi é na minha visão sempre será apenas uma hipótese quase infantil”
O Rio de Janeiro é considerado um dos lugares mais bonitos do mundo e símbolo do Brasil.
Contudo, a cidade está dominada por facções que lutam entre si para controlar cada centímetro do território da capital carioca.
Em meio a esse cenário caótico, a população se tornou refém dos embates constantes entre organizações do crime organizado.
O paraíso descrito em tantas músicas brasileiras que conquistou o imaginário do mundo inteiro parece estar em chamas.
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